Em dois Estados – Piauí e Santa Catarina -, a amplitude remuneratória é inferior a 3%, o que faz com que o salário de um docente praticamente não mude ao longo da carreira. Outros oito Estados registram amplitudes inferiores a 25%, patamar considerado baixo para estimular o desenvolvimento profissional, mostra o estudo.
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Diferenças entre os salários no começo e no fim de carreira
Piso salarial
Apesar de todas as redes estaduais do País já cumprirem o piso nacional dos professores, o Estado que paga mais oferece salário inicial 2,7 vezes maior do que aquele que tem a remuneração mais baixa. Os resultados estão no estudo divulgado pelo Movimento Profissão Docente nesta semana, que analisou os salários de 2025 com base em dados oficiais. Pesquisas nacionais e internacionais mostram que um bom professor é responsável pela maior parte do resultado dos alunos na escola.
Um professor no Brasil, sem contar as gratificações e prêmios, começa sua carreira ganhando uma média de R$ 6,2 mil, o que corresponde a 4 salários mínimos e está bem acima do piso estipulado por lei no ano passado, de R$ 4.868.
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A rede estadual com o mais alto salário inicial é a do Mato Grosso do Sul, com R$ 13 mil, e a que oferece o mais baixo é a do Rio de Janeiro, com R$ 4,8 mil, exatamente o valor do piso. São Paulo paga R$ 5,5 mil aos novatos.
Por outro lado, os paulistas têm a segunda maior remuneração do País no fim da carreira (R$ 14,4 mil). A rede estadual de São Paulo é a maior do Brasil, com cerca de 200 mil professores. Mato Grosso do Sul continua como a primeira no ranking da remuneração final, com R$ 26,5 mil. A rede sul-mato-grossense tem 21 mil docentes.
Em nota, o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) afirmou que “comparações descontextualizadas entre unidades federativas, sem considerar especificidades fiscais, jurídicas e administrativas, não contribuem para o fortalecimento da educação pública.”
Especialistas defendem avaliação do desempenho dos professores para progressão na carreira
Especialistas defendem avaliação do desempenho dos professores para progressão na carreira Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Segundo os organizadores do estudo, antes de serem publicados, os dados foram enviados para todos os Estados e para o Distrito Federal para serem validados e eventuais ajustes foram feitos.
O Estadão apurou que a divulgação da comparação dos salários causou mal-estar entre secretários de educação, em especial em ano eleitoral.
Pesquisas internacionais mostram que um bom salário inicial – e um crescimento na remuneração ao longo dos primeiros 15 anos de magistério – é importante para atrair talentos para a carreira, um problema no País.
A docência costuma ser a preferência dos estudantes que tiveram notas mais baixas em avaliações e que não conseguiram ser aprovados em outras graduações. Os cursos que formam professores, como os de Licenciaturas, são mais fáceis de ingressar porque oferecem muitas vagas, mensalidades baixas e educação a distância (EAD).
“É uma tradição que não é boa do setor público: quem ganha bem está no fim na carreira, independentemente do mérito”, diz o coordenador geral do Movimento Profissão Docente, Haroldo Correa Rocha, ex-secretário da Educação do Espírito Santo.
“Além de não fazer distinção dos melhores profissionais e não atrair os talentos, o Estado acaba não tendo dinheiro para pagar quem está no início”, explica Rocha, que também foi secretário executivo da pasta em São Paulo. O Movimento Profissão Docente inclui organizações do terceiro setor, como Fundação Lemann, Instituto Natura, Fundação Itaú e Todos pela Educação.
Ele defende também que os Estados façam avaliação de desempenho dos professores para definir quem deve ganhar mais – algo também indicado em estudos internacionais. “A maioria usa a titulação para essa progressão, o que também não tem evidência de grande impacto na aprendizagem das crianças”, completa.
Segundo o relatório, a avaliação ainda é pouco estruturada nas redes estaduais. Embora 22 redes prevejam esse mecanismo como critério para progressão na carreira, apenas 12 regulamentaram os instrumentos de avaliação.
Na prática, muitas utilizam formulários padronizados preenchidos pela chefia ou por comissões, um modelo que costuma avaliar aspectos burocráticos e pouco relacionados à prática em sala de aula.
Especialistas defendem que as redes deveriam incluir evidências diretas do trabalho docente, como observação ou gravação de aulas e portfólios, capazes de identificar pontos fortes e fragilidades do ensino e orientar políticas de formação continuada.
Estudo realizado por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV) com apoio do Instituto Península mostrou que, no Brasil, o professor é responsável por quase 60% do resultado dos alunos no ensino fundamental.
Isso quer dizer que ele é mais relevante que todas as outras variáveis da escola pública somadas, como número de alunos por turma, escolaridade dos pais, se há ou não internet e até o partido do prefeito. “A remuneração ajuda a motivar e melhorar a qualidade técnica, atraindo os melhores”, afirma Rocha.
A nota do Consed diz ainda que “é fundamental destacar que a valorização docente não se resume exclusivamente à dimensão salarial”. Envolve, conforme a entidade, “condições adequadas de trabalho, organização da jornada, formação continuada estruturada, políticas de desenvolvimento profissional, estabilidade institucional e reconhecimento social da profissão.”
Diferenças entre os salários no começo e no fim de carreira
O relatório também traz o conceito de amplitude remuneratória: a diferença percentual entre o salário inicial e quanto o professor ganha depois de 15 anos de serviço e no fim da carreira.
Em dois Estados – Piauí e Santa Catarina -, a amplitude remuneratória é inferior a 3%, o que faz com que o salário de um docente praticamente não mude ao longo da carreira. Outros oito Estados registram amplitudes inferiores a 25%, patamar considerado baixo para estimular o desenvolvimento profissional, mostra o estudo.
A média nacional é de 49%. No outro extremo, redes como as de Tocantins, Amapá, Ceará, São Paulo e Mato Grosso do Sul têm amplitudes entre 70% a 100%, intervalo semelhante ao observado em países com sistemas educacionais de alto desempenho, como Canadá, Luxemburgo, Áustria e Japão.
O estudo também aponta que redes como Ceará e São Paulo concentram aumentos salariais mais fortes nos primeiros 15 anos de carreira, o que é considerado importante para reter talentos, com crescimento superior a 40%.
Já o Rio de Janeiro não apresenta crescimento nesse período. “Uma curva salarial mais íngreme no início sinaliza valorização do professor iniciante, reconhece o esforço de inserção profissional e dialoga com o período de maior curva de aprendizagem e desenvolvimento da prática docente”, diz o relatório.
Piso salarial
O mecanismo atual determina que o piso salarial dos professores seja reajustado em janeiro com o mesmo porcentual de crescimento do valor anual mínimo investido por aluno no Fundeb, principal fundo de custeio da educação.
O fundo é o principal mecanismo de financiamento da educação no País e funciona como uma cesta de impostos, redividida conforme o número de estudantes em cada cidade ou Estado. Se a economia cresce e há mais arrecadação, esse valor total aumenta.
Segundo o relatório, entre 2009, quando foi criado, e o ano passado, o valor do piso teve reajuste total de 412,4% – de R$ 950 para R$ 4.868.
O processo vem sendo questionado por especialistas, entidades de classe e pelo Ministério da Educação. O governo editou uma medida provisória este ano para que o piso fosse reajustado pela inflação e, em 2026, ele cresceu 5%, ficando em R$ 5.130,63.
A previsibilidade maior dos reajustes também ajuda na organização dos orçamentos estaduais e municipais, já que todos devem seguir o piso. A discussão para mudar a Lei do Piso definitivamente ainda está em discussão no Congresso.
Via O Estadão

