Firma ACX ITC pagou a escritório de advocacia de Verônica Sterman, antes de ela tomar posse no STM. Informações são do Coaf
Uma firma utilizada pelo empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, pagou R$ 700 mil ao escritório de advocacia da ministra Verônica Abdalla Sterman, do Superior Tribunal Militar (STM). O pagamento consta em um dos Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) elaborados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e encaminhados à CPMI do INSS.
Feito em uma única parcela, o desembolso foi destinado ao escritório de advocacia dela. No entanto, a coluna não conseguiu localizar processos em que Sterman tenha atuado em favor da ACX ITC ou de outras empresas do grupo.Advogada paulista de 41 anos, Verônica foi nomeada para o cargo pelo presidente Lula (PT) em setembro passado.
Sterman já teve como clientes a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), e o marido da petista, ex-ministro Paulo Bernardo (PT); além do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). Os três políticos apoiaram a indicação dela ao cargo. Em 2024, Gleisi e Alckmin já haviam apoiado o nome de Verônica para o cargo de desembargadora do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), em São Paulo.
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Como mostrou a coluna, a ACX ITC também pagou R$ 595 mil ao escritório de advocacia do ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Nefi Cordeiro, depois de ele deixar a Corte. Assim como no caso de Verônica, a coluna não encontrou registro de casos em que Nefi Cordeiro tenha defendido a ACX ITC. Em nota, o ex-ministro disse que o pagamento se refere a serviços advocatícios.
Segundo a ministra, o pagamento diz respeito a três pareceres jurídicos elaborados por ela, sobre temas criminais relacionados às atividades da empresa. Ela diz ainda desconhecer qualquer relação da ACX ITC com o “Careca do INSS”.
“A magistrada esclarece ainda que, à época em que exercia a advocacia, foi consultada por essa empresa exclusivamente sobre a possibilidade de elaboração de três pareceres jurídicos, todos relacionados a temas de natureza criminal vinculados às atividades então desenvolvidas pela contratante”, diz o texto.
“Após a consulta, foi apresentada proposta de honorários, posteriormente aceita pela empresa. Os pareceres foram regularmente elaborados e entregues dentro dos prazos previamente estipulados, encerrando-se aí a relação profissional”, afirma.
Empresa “milionária” está em nome de recebedora do Bolsa Família
A ACX ITC foi aberta por dois empresários, ambos moradores de São Paulo: Ericsson de Azevedo e Erika Nogueira Marques da Costa. Durante a pandemia de Covid-19, ambos receberam o Auxílio Emergencial do governo federal. Além disso, Erika recebeu o Bolsa Família entre 2014 e outubro de 2021.
Enquanto recebia os pagamentos do programa social, Erika registrou na Junta Comercial ser a dona de metade do capital da empresa — pouco mais de R$ 50 milhões. Posteriormente, ela foi substituída na sociedade por outro dono. Ericsson segue como proprietário.
Nos documentos registrados na Junta Comercial, a ACX ITC é uma empresa de tecnologia e investimentos financeiros sediada em São Paulo, iniciada em dezembro de 2021, com capital de R$ 101,2 milhões.
No entanto, segundo a Polícia Federal, a ACX ITC era uma das firmas usadas pelo “Careca do INSS” para dificultar o rastreio dos recursos movimentados por ele.
A ACX ITC teve o sigilo fiscal quebrado pela CPMI do INSS por ser destinatária de recursos da Arpar Participações e Empreendimentos, pertencente ao Careca. Segundo o requerimento de quebra de sigilo, a ACX ITC recebeu pelo menos R$ 4,4 milhões da Arpar.
Segundo a Polícia Federal, a Arpar era uma empresa de passagem, usada pelo Careca para “fragmentar o fluxo financeiro, dificultar o rastreamento da origem criminosa dos recursos e ocultar os beneficiários finais”. Para isso, a Arpar dispersava o dinheiro entre várias firmas, entre elas a ACX ITC.
Apesar do suposto capital milionário, a presença on-line da empresa se resume a uma página no Instagram, que fez o último post em abril de 2023. Há também um site, mas está fora do ar.
Vítima acusa grupo de pirâmide financeira
A empresa ACX ITC tem poucos processos em andamento. Um deles é o da advogada Fernanda Teixeira de Souza, de Florianópolis (SC). Em 2022, ela depositou R$ 780 mil em favor da ACX ITC, como investimento. No entanto, a partir de fevereiro de 2023, foi impedida de acessar o site da empresa e de resgatar os valores — ou seja, a firma tomou o dinheiro.
Na petição, a advogada explica que a ACX ITC integrava um grupo então conhecido como RCX Group. Esse grupo foi investigado na CPI das Pirâmides Financeiras, realizada pela Câmara dos Deputados em 2023. Na ocasião, a CPI pediu o indiciamento de pessoas ligadas à empresa.
Na petição, ela alega ter sido enganada pelo grupo econômico.
“De fato, a agravante e outros tantos investidores foram ludibriados pelo dividendo prometido, bem como pela luxuosa vida que os sócios ostentavam, regada a veículos importados, imóveis luxuosos e viagens, tudo para transmitir credibilidade à operação.”
A coluna não conseguiu contato com os responsáveis pelo RCX Group.
Via Portal Metropoles

