Notícias de União e Região

A fazenda designada para o sucesso (Fazenda Designio)

Piquete Explorador do Estanhado ( José Santana, Danilo Reis e Zé Raimundo Sousa)

Domingo, 06 de janeiro de 2019. Como de costume, nos preparamos para mais uma “expedição” do Piquete Explorador do Estanhado (PEE), rumo ao interior do município de União. Partimos dessa vez em busca de uma joia da antiga Vila de União, a avultada Fazenda Desígnio, um dos latifúndios mais importantes da região centro-norte do Piauí durante o século XIX. Para se chegar até ela, ou ao que restou dela, adentramos nos limites territoriais do município vizinho de Miguel Alves, rumo à localidade Porto do Desígnio, povoado ribeirinho derivado da antiga propriedade.

Deixamos a cidade de União por volta das nove da manhã. Seguimos em direção ao Norte,  rumo a Miguel Alves pela rodovia estadual PI 112, conhecida por “Vale do Parnaíba”, estrada de rodagem que substituiu a importante via fluvial do Rio Parnaíba, um dos vetores de desenvolvimento da fazenda Desígnio. Ao alcançarmos o km-38, deixamos a rodovia e seguimos para o Oeste, por um caminho de terra, em direção ao Rio Parnaíba. Nosso destino estaria há poucos quilômetros à frente. Nesse itinerário, passamos pelo povoado Centro do Desígnio, importante lugarejo miguel-alvense derivado da antiga fazenda. Sem demora chegamos ao nosso destino final, o Porto do Desígnio. Eram por volta das dez da manhã.

PI-112(Rodovia Vale do Parnaíba)
Povoado Centro do Designio

Desembarcamos próximo ao “velho monge”. A princípio, após descermos, observamos por um instante a paisagem do entorno… a brisa suave; a calmaria das águas; as canoas de pescadores descendo e subindo o rio; o martin-pescador arrancando d’água o seu quinhão; e o assobio dos atravessadores acenando para os transeuntes. Prendeu-nos a atenção a intensa movimentação no “porto”, com o vai e vem constante de pessoas se deslocando entre as duas margens. Uma embarcação chamada “pontão” fazia a travessia diária de veículos e passageiros. Isso, certamente foi uma rotina herdada de outros tempos, dos tempos da promissora Desígnio.

Rio Parnaíba (Velho Monge)
Observando a Paisagem

Na outra margem, avistava-se a subestação de energia elétrica da cidade de Duque Bacelar, município maranhense importante daquelas paragens. Na companhia de José Raimundo Sousa e José Santana Carneiro, começamos a nos perguntar: “E agora?! Por onde começar? Onde seria a localização exata da antiga fazenda?” As únicas referências que tínhamos eram leituras feitas antes da viagem, e segundo elas, a sede da “quinta” estaria localizada no alto de uma colina, em uma curva do Rio Parnaíba.

Velho Monge
a procura da antiga fazenda

Mas que Fazenda era essa?!

Para começar, a Fazenda Desígnio foi um grande latifúndio criado, acredita-se, no início do século XIX, e que pertenceu ao tenente-coronel Pacífico da Silva Castelo Branco, figura de destaque na política e na sociedade piauiense dos “oitocentos”. Ele possuía muitas propriedades no centro-norte da então província do Piauhy. Casou-se três vezes. Os dois primeiros matrimônios foram, respectivamente, com Olívia Clara Castelo Branco, filha de João Barbosa Ferreira, e depois com uma sobrinha da primeira esposa, Torquata Gonçalves.  Além de ter sido um grande latifundiário, ele também se dedicou à vida pública. Foi durante muito tempo chefe do Partido Liberal piauiense, envolvendo-se diretamente na política local. Chegou a ser vereador e presidente da Câmara Municipal da vila de Parnaíba. Outro ponto de destaque foi sua participação na campanha da Guerra do Paraguai, comandando um batalhão de voluntários. Abolicionista “militante”, tinha o costume de alforriar anualmente, na data de seu aniversário um casal de escravos. Foi um homem importante de seu tempo!

Pacífico da Silva Castello Branco e sua segunda Esposa Torquata Gonçalves

O grande empreendimento do Desígnio distava cerca de 4 léguas ao Norte da antiga Vila de União (de onde partimos), via rio Parnaíba. Conforme já citado, ela ficava numa curva do Rio Parnaíba, sobre uma declivosa colina, nas ribanceiras do “velho monge”. De acordo com a descrição, a propriedade era toda cercada, e cobria aproximadamente uma légua quadrada, empachada de gado selecionado. Os seus currais eram “designados” a criação de valorosos vacuns e cavalares. Foi desenvolvida na propriedade uma raça de gado vacum denominada “Baé”, animais que se caracterizavam por ter baixa estatura, muito peso e com alta produção leiteira. Ou seja, muito rentável. Outra marca da fazenda era a criação de cavalares reprodutores, vendidos a preço de ouro.

Contudo, a atividade pecuária não era a única desenvolvida na Desígnio. Por ser um porto natural, rapidamente o local se transformou em ponto de parada “obrigatória” para as embarcações que desciam e subiam o Parnaíba escoando a produção das vilas e povoados ribeirinhos. A partir de 1858, muitos vapores passaram a atracar no “porto” da Desígnio para embarcar a produção agropastoril da região. Essa intensa movimentação, acabou atraindo muita gente  para as redondezas. Daí o hoje “Porto do Desígnio”.

Como já vimos, Pacífico era um homem cheio de compromissos e muito atarefado. Após perder suas duas primeiras esposas deixou a propriedade sob administração de um primo, Manuel Tomaz Ferreira (o segundo do nome), que a gerenciou durante muitos anos. Ferreira se estabeleceu na propriedade durante décadas, tocando-a muito bem. Era um exímio artesão na arte do couro, produção essa que também chegou a ser incluída no “menu” de exportações oriundas da fazenda. A título de curiosidade, Manuel Tomaz foi pai de duas figuras muito conhecidas no Piauí: Fenelon Ferreira Castelo Branco e Homero Castelo Branco, esse nascido na própria Desígnio.

Manuel Tomaz Ferreira

Continuemos…

Seguindo as referências e orientações de moradores, nos deslocamos rio acima por uma pequena trilha, estreita, margeante o rio Parnaíba. Ela parecia nos levar a um túnel, sombreado pela copa de frondosas árvores, que protegiam as barrancas do rio naquele trecho. A bucólica “estradinha” parecia não ter fim. Perguntamo-nos: “Estamos no caminho certo?“ Sem nos darmos tempo para pensar, avistamos um pouco mais a frente o seu limite. Ela acabava alguns metros à frente, numa escarpada colina, na curva do rio, em um trecho de margem bastante rochosa. O cenário era compatível com aquele apontado pelas referências.

A poucos metros dali, avistamos um grupo de mulheres, reunidas,  lavando roupas sobre as pedras na margem do rio, costume ainda presente no cotidiano das populações ribeirinhas. Com elas, descobrimos que estávamos no local exato. Segundo elas, no alto daquela colina, existia um antigo casarão, já em estado de ruínas, que teria pertencido aos antigos donos do Desígnio. Certamente se referiam a epopeica casa-grande da fazenda. Segundo as descrições, ela possuía dois pavimentos: o primeiro andar com acomodações para a família, e o térreo destinado ao armazenamento da produção agrícola da fazenda, entres eles, algodão, cana e farinha.

Dali, era possível se ter uma vista privilegiada da região. De cima se avistaria os vapores que chegavam dos dois sentidos ao Porto. Certamente um cenário de encher os olhos. Infelizmente a tentativa de chegarmos até as ruínas da construção nos foi barrada pelos obstáculos naturais. A trilha prosseguia colina acima, numa curva bastante íngreme,  seguida por um caminho bem estreito, nas bordas de um precipício. Mais a frente a trilha se perdia em um emaranhado de cipós e pedras soltas. Não deu pra fazer mais do que contemplar a paisagem e fazer algumas fotos. Nos convencemos em não seguir em frente, e esperar outra ocasião. Foi uma grande frustação. No entanto, tínhamos conseguido chegar na localização exata da antiga Desígnio.

As horas se passavam rapidamente e tivemos que fazer o caminho de volta. No trajeto até o carro,  paramos e conversamos com alguns ribeirinhos. Foi-nos revelado que pouco restou do antigo imóvel. Ruínas da construção foram utilizadas na construção de uma escola e de uma quadra poliesportiva no povoado. Um verdadeiro desserviço ao patrimônio histórico local. A única herança, segundo os moradores, é o resquício de um antigo cemitério, reservado a família do fazendeiro. Ainda segundo eles, nas proximidades dali foram encontrados alguns fragmentos de louça e cerâmica, achados que comprovam a ocupação da região em outros tempos. No local denominado “Remanso do Frade” (ou Padre), há poucos metros do “porto” do Desígnio, foi encontrado uma moeda de réis, datada do século XIX, o que demonstra mais uma vez a ocupação daquele lugar. O local “Remanso” pertenceu a família da primeira esposa de Pacífico, Olívia Clara, que possuía muitas terras naquelas adjacências.  

Moeda encontrada no local denominado “Remanso do Frade” (ou Padre).

E o que foi feito da Desígnio? Após décadas tocando a fazenda, o administrador Manuel Tomaz a devolveu aos seus herdeiros. A partir de então, as terras foram sendo repassadas a outros donos, até se fragmentar. Parte dela chegou a pertencer aos familiares de Mariano Sousa Mendes, erradicado em Miguel Alves no final do século XIX. Em 1911, elas passaram para a municipalidade de  Miguel Alves, então desmembrado de União. A importante Fazenda Desígnio deu origem a dois povoados importantes – Centro e Porto do Desígnio. Em 13 de janeiro de 2019 foi criado no “Centro” uma Paróquia, sob orago de São Bernardo de Claraval, e pertencente à Arquidiocese de Teresina. Isso prova que a região acumula um importante núcleo populacional. Em outros tempos, isso seria preâmbulo para uma emancipação política.

vista aérea do Centro do Designio (desbravadores de Miguel Alves)

Após duas horas calcorreando as velhas veredas da Desígnio, retornamos para casa. Era um pouco mais do meio dia quando tomamos o caminho de volta. Partimos já com planos de um retorno breve, agora, quem sabe, com possibilidade de conseguirmos chegar em fim “ao topo da  colina”, centro de uma das fazendas mais importantes do Piauí.

Crédito Reprodução: Dilson Lages(portal entretextos.com.br)

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