Pelo menos 424 famílias tiveram suas casas atingidas por alagamentos e quase 1,5 mil pessoas hoje são consideradas desabrigadas, segundo números mais atuais da Defesa Civil
Praticamente todos os anos, em períodos chuvosos como este, moradores de algumas regiões de Teresina sofrem com as enchentes, alagamentos, queda de energia elétrica, entre outros problemas.
Neste início de 2022, a situação se repetiu. As primeiras chuvas do ano acarretaram em um grande número de pessoas desabrigadas. Pelo menos 424 famílias tiveram suas casas atingidas por alagamentos e quase 1,5 mil pessoas hoje são consideradas desabrigadas, segundo números mais atuais da Defesa Civil.
Cerca de 90% da população atingida pelas enchentes, gente que teve sua casa inundada e perdeu diversos bens, encontrava-se residente no bairro Mafrense, na zona Norte de Teresina. Boa parte dos moradores das casas atingidas foi realocada para algumas escolas públicas da rede municipal, administradas pela Prefeitura de Teresina (PMT).
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Vale lembrar que nem todos toparam ir para os abrigos públicos. Alguns dos moradores que perderam suas casas decidiram ir para casas de parentes e até aquelas famílias que resolveram, por conta própria, voltar para suas casas, mesmo com o risco de outra enchente ou desabamento. Muitas dessas famílias tiveram de ser separadas no processo de realocação, além de perderem quase todos os seus bens.
Muitos foram obrigadas ver as coisas que levaram anos construindo com muito esforço, indo por água a baixo, em questão de horas. Diante dessa situação, o OitoMeia buscou ouvir relatos e histórias dessas pessoas que foram diretamente afetadas, ao perderem tudo. A redação se deslocou até a Escola Municipal Domingos Afonso, onde muitas famílias estão abrigadas, recebendo assistência do governo, e esperando o desenrolar da situação. A equipe de reportagem foi até o Mafrense e ouviu relatos emocionantes. Confira:

“É MUITO RUIM ESTAR SEPARADA DOS MEUS FILHOS”
A senhora Elisabeth Ferreira é um exemplo disso, dona de casa e mãe de quatro filhos, a mulher e toda sua família se viram desamparados de um dia para o outro, após sua casa ser tomada pela água. De acordo com ela, dentre os cinco anos em que esteve morando no bairro Mafrense, essa foi a primeira vez que uma catástrofe assim aconteceu a ela e à sua família. Além de ter perdido seu lar, Elizabeth e seu esposo tiveram que ser separados de seus quatro filhos, pois a sala da escola em que estão não comportava a família inteira. Apesar de ter conseguido salvar seus bens materiais, para Elizabeth, a saudade de estar com seus filhos, em seu lar é o que está sendo mais difícil nesse momento.
“Eu sinto muita saudade dos meus filhos, mesmo que eu não tenha perdido muita coisa, é muito ruim estar separada deles. Mas na sala onde me colocaram não tem espaço para todos nós, só eu e meu esposo, e mias outra família que está dividindo o local com a gente”, alegou Elizabeth.

“NÓS SAÍMOS RESGATADOS PELOS BOMBEIROS”
Além de Elizabeth, outras pessoas se encontram na mesma situação, uma delas é a senhora Maria do Socorro Carvalho, que também foi colocada na escola Domingos Afonso. Idosa, portadora de diversos problemas de saúde, com diabetes e pressão alta, ela perdeu quase todos os seus bens, como guarda-roupa, fogão e cama, e resgatou o máximo que pôde. Dona Maria mora com seu neto, e de acordo com seu relato, a enchente aconteceu de repente.
“Quando eu me dei conta, a água já estava toda em meu quintal, e depois dentro de casa. Nós saímos resgatados pelos bombeiros. Eu perdi meu guarda-roupa, minha cama, perdi colchão… Quero ver quando eu for para uma casa, como eu vou ajeitar minhas coisas, porque perdi tudo”, afirmou a senhora.

“EU QUERO QUE AJEITEM MINHA CASA AQUI MESMO”
As autoridades pretendem colocar a maior parte das famílias em casas abandonadas que estão localizadas no bairro Torquato Neto, extremo sul de Teresina. Porém, isso não está sendo bem aceito pela população afetada, visto que, todos estão acostmados a morar na zona norte. De acordo com dona Maria, toda sua vida está concetrada naquelas redondezas, seu ciclo social, seus médicos, e para ela, que já é idosa, é inviável se deslocar para uma distância como essa.
“Eu não quero ir pra lá (Torquato Neto), eu tenho problema de saúde, minha vida é aqui, meus médicos estão por aqui, eu conheço pessoas aqui. Eu queria que ajeitassem uma casa para nós por aqui mesmo”, relata.

OITO ANOS PARA CONSTRUIR PARA, EM DOIS DIAS, A CHUVA DESTRUIR
Além das pessoas que foram colocadas nas escolas, existem aquelas que optaram não sair de suas casas, ou que nem chegaram a receber o benefício de realocação, nem doações, tendo assim, que se virar com o que podem. Segundo elas, só foram contemplados com assistência do governo, as pessoas levadas às escolas.
A senhora Maria José, morava com seus dois filhos e sua nora, mas devido ao acontecido, também teve sua família toda separada, cada um se abrigando onde conseguiu. Em entrevista, ela comentou que ainda não recebeu nenhum auxílio das autoridades. Dona Maria José, bem como outros, perdeu todas as suas coisas.
“Passei mais de oito anos construindo isso aqui, pra chuva vir em dois dias e destruir tudo”, disse Maria José.

“DEVERIAM PRIORIZAR AS PESSOAS QUE PERDERAM TUDO”
Ela afirmou ainda, que em sua percepção, o governo poderia estar fazendo mais pelas famílias, e que estão se mostrando ineficazes até nas visitações às casas que foram inundadas. Mas que está esperando a devida assistência, e diferente de muitos que não tem pretenção de sair do bairro, o seu desejo é uma casa nova e segura, independente do lugar.
“Eu ainda não recebi nada de ninguém, só perdi. Não ganhei nem colchão, nem cesta básica. Para mim, eu acho que eles deveriam priorizar as pessoas que estão mais desfavorecidas, que perderam tudo”, relata.
A chuva não levou só os bens materiais dessas pessoas, ou destruiu suas casas. Com ela, foram levados sonhos, esperança, os frutos de muito trabalho, e as memórias que haviam sido construídas dentro de cada um dos lares.




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