Notícias de União e Região

Quando a Poesia vira “Profecia” – Fenelon Castelo Branco

A revista, União por dentro, 1916 apresenta alguns poemas, que cem anos depois se configuraram como verdadeiras profecias. De certo, há época em que o material foi escrito, também retratava a realidade. Passados mais de cem anos, a realidade parece a mesma! Vejam!

A CIDADE

Ó Poderes do Estado: os meus gemidos

Hão de tocar os vossos corações!

Escutai minha voz; prestai ouvidos

À história das minhas aflições!

Os chefes daqui, já corrompidos.

Equivalem aos grandes furacões;

Roubaram-me o fulgor dos tempos idos,

E mataram-me as doces ilusões!

Que me viu triunfar em priscas eras,

Nesse belo passado, já remoto,

Augurando-me eternas primaveras,

E agora me encanta por qualquer prisma,

Suporá que sofri um terremoto,

Ou fui presa de horrível cataclisma!

O CEMITÉRIO PÚBLICO

Eu sou o Cemitério – o campo santo,

E trago em meu recinto afetos raros;

Os despojos mortais dos entes caros

Repousam por aqui em cada canto

Carinhos eu mereço, e no eterno,

(É preciso dizê-lo em termos claros)

Os mandões d’esta terra, homens avaros,

Lançaram-me do olvido o negro manto!

Campos nobres conservo no meu seio,

Mas sarça e carrapicho de permeio

O aspecto me dão de capoeira!

O muro que em redor me guarnecia

Desabou, de maneira que hoje em dia

Sou cercado de talos de palmeiras!

A LIMPEZA PÚBLICA

Aqui há muito lixo, ali também…!

Podridões nesta rua, noutra um charco,

Nos pântanos mefíticos me encharco,

Que eu aqui os encontro, ali… além…!

Dir-se-á que o recurso é muito parco,

E por isso a Comuna houve por bem

Não gasta na limpeza um só vintém!

Mas eu nessa canoa não embarco.

Limpeza da cidade nem por fita;

Desse assunto a intendência não cogita;

Para isso o dinheiro é tão poupado!

Mas o há para pagar Intendente,

Vejam bem: para pagar-lhe mensalmente

Trezentos e cinquenta de ordenado!

Fenelon Castelo Branco – Revista União por dentro, 1916.

Com a colaboração de Danilo José Reis – PEE.

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